22 de ago de 2010

Homila Canonização



Visita Pastoral do Papa João Paulo II a Messina e Reggio Calabria

Canonização da Bem-aventurada Eustoquia Calafatto, Clarissa

Homilia do Papa João Paulo II – Messina, sábado, 11 de junho de 1988.

1.“Eu sou a verdadeira videira” (Jo 15, 1)
Cristo pronuncia estas palavras, a alegoria da videira e dos ramos, um dia antes de sua paixão. Por isso, essas palavras adquirem um significado particular. Pode-se dizer que, entre as parábolas do Evangelho, essa contem em si uma singular síntese da obra salvífica de cristo, cujo cume é o mistério pascal. “Eu sou a verdadeira videira e o meu Pai é o agricultor”. Aqui encontramos como que um comentário daquelas outras palavras: “Meu Pai trabalha sempre e também eu trabalho” (Jo 5,17). O Pai trabalha mediante o Filho. O operar do Pai assemelha-se ao verdadeiro trabalho do vinhateiro. Quando o Filho chama a si mesmo de “verdadeira videira”, diz isso por que o Pai decidiu permanecer nele e por ele implantar a vida nova no homem: nas almas humanas, na história humana. Na vigília de sua morte, Jesus falou aos apóstolos, e isso tem uma grande eloquência. Porque justamente tal morte, a morte dele, o sacrifício da cruz, tornar-se-á fonte de vida para o homem. Essa é a “videira” mediante a qual a nova vida, a vida divina deve permanecer unida aos “ramos”.
2.Escutando o atual texto do evangelho, a nossa atenção se concentra em particular sobre um “ramo”, em cuja videira divina que é Cristo deu fruto de vida nova: um fruto particularmente abundante. A Igreja alegra-se  de poder hoje aqui, em Messina, proclamar solenemente a santidade de uma fiel filha de vossa terra siciliana: a Bem-aventurada Eustóquia Esmeralda Calafato. Esta jovem, estimando Cristo sobre todas as coisas, doou-se totalmente a Ele e iniciou um caminho de crescimento na caridade mediante severos sacrifícios e longas vigílias de adoração diante daquele trono de misericórdia, que é a cruz, diante daquele trono de majestade, que é o tabernáculo.
3.As leituras da presente liturgia de canonização nos permitem penetrar de modo melhor na história da alma desta nova santa da Igreja. Escutemos, portanto, das palavras do salmo, este fervente grito do coração, que procura Deus com todas as suas forças. Com anseio e em espírito de piedade elevamos a voz para dizer: “Ó Deus, Tu és o meu Deus, desde a aurora te procuro, minha alma tem sede de ti” (Sl 62,1). Madura e serena é aquela alma que percebe a exigência de Deus com a mesma intensidade acom a qual a “terra deserta, árida, sem água” (Sl 62,2) espera a chuva que dá refrigério e vida. Adulta na fé e alegre na graça é aquela pessoa que, seja no silêncio da noite e da contemplação, seja na oração simples, elevada também no trabalho cotidiano, confia-se à paternidade divina para ter conforto e paz: Deus concede sempre esses dons a quem se refugia sob as suas asas (Sl 62,9). A contemplação da misericordiosa bondade divina é alimento e bebida que “sacia a alma” (Sl 63,6), que é repletada pela linfa vital de Cristo. O assemelhamento a Jesus, que decorre disso, faz viver a pessoa de modo sobre-humano, porque não se vive mais por si mesmo, mas por Deus, realizando os seus desejos e participando de sua vida, procurada com anseio incessante (Sl 62,2).
4.O grande Pascal colocou na boca de Cristo estas palavras: “Não me procurarias, se não tivesses me encontrado” (B.Pascal, “Pensèes”,553). Não me procurarias, se eu mesmo por primeiro não te houvesse chamado. As palavras do profeta Oséias aludem justamente a este chamado, ao convite de Deus. E este é o convite às núpcias espirituais. Deus chamou Santa Eustóquia, tomou-a para si (Os 2,16) e ela, no deserto de sua estreita cela e nas prolongadas vigílias, viveu à espera de seu Senhor e Esposo, o qual a tornou capaz de entender as divinas palavras que dirigia ao seu coração (Os 2,16). O Onipotente a fez sua esposa para sempre na caridade e na compaixão, e com esta verdadeira, divina justiça conduziu-a na santidade, plenificando-a de bens (Os 2,21). De sua parte, a nova santa, com humilde constância, perseverou neste amor e não hesitou jamais no sacrifício, para crescer e tal amor e permanecer nele.
5.Quando, portanto, a alma humana sente o chamado de seu Deus, daquele Deus que ela procura, sem o qual é “como terra deserta, árida, sem água” (Sl 62,2), então se cumpre no homem uma conversão sempre mais profundo. E esta conversão é, ao mesmo tempo, uma grande “revalorização”, como deixa entender Paulo na Carta aos Filipenses. O chamado, conversão, que derivou do encontro com Cristo no caminho de Damasco, produziu no Apóstolo das gentes um completo desenvolvimento dos “valores”. Daquele momento o perseguidor dos cristãos começou a ter como perda tudo aquilo que antes considerava como um ganho. E, ainda que o seguimento de Cristo houvesse levado consigo perseguições, sofrimentos e fadigas não comuns, ele não mudou sua decisão, antes reforçou em si mesmo (cf. Fl 3,8). Na luz do Redentor Ressuscitado, seu único desejo foi alcançar a comunhão total com Ele (cf. Fl 3,9). Paulo, qual inexperiente fariseu, havia tentado dar-se uma justiça própria mediante uma pontual observância da Lei em todas as suas prescrições. Mas com a sua conversão, compreendeu que a verdadeira justiça vem unicamente do Senhor Deus. A condição de antes, de não poder receber tal dom de benevolência é pobreza de espírito que abre a alma a Cristo e a leva a amá-lo mais do que a si mesma. Alargada pela fé, a justiça divina arranca os homens da baixeza do mal e os eleva ao vértice da filialidade sobrenatural. De tal altitude luminosa é possível ter um olhar vasto, penetrante, que consente de conhecer em profundidade o mistério de Cristo (Fl 3,10). E tal conhecimento de Cristo, no qual “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2,3), é valor supremo para o homem “convertido”, transformado pela graça, e é conhecimento não redutível a um mero arrependimento intelectual. Essa é a comunhão de mente e de coração com Cristo-Verdade, graças à qual se torna plenamente participante de sua paixão, morte e ressurreição, condividindo com Ele também a força redentora. O conhecimento de Cristo, a consciência de ser ligados a Ele, de “encontrar-se nele mediante tal conhecimento”, nos faz acolher a “justiça que deriva de Deus”, como graça nascida do empenho e como depósito, que nos torna certos da utilidade das energias despendidas com dedicação para a edificação de Reino.
6.Nisso é esplêndido o exemplo de Santa Eustóquia. Ela, colocando-se com assiduidade na escola de Cristo Crucificado, acreditou na sua consciência e, meditando os mistérios esplendentes de graça, concebeu um fiel amor por Ele. Para nossa Santa, a vida claustral não foi uma mera fuga do mundo para refugiar-se em Deus. Ela, com severa ascese que se impôs, queria certamente unir-se a Cristo, eliminando sempre mais aquilo que nela, como em todo ser humano havia de caduco, mas sentia de estar ao mesmo tempo unida a todos. Da cela do mosteiro de Montevergine ela estendia a sua oração e o valor de sua penitência ao mundo inteiro. De tal modo entendia estar vizinha a cada irmão, aliviar toda dor, pedir perdão pelo pecado de todos. Hoje Santa Eustóquia nos ensina a preciosidade da consagração total a Cristo, a amar com afeto esponsal, devoto, completo. Quando se adere a Ele, se ama com o próprio coração dele, que possui uma capacidade infinita de caridade.
7.Neste dia de festa, caros irmãos e irmãs da comunidade eclesial de Messina, Lapari, Santa Lucia de Mela, uno-me à vossa alegria e vos dirijo com júbilo estas palavras plenas de afeto pastoral. É coisa para mim grata colocar, em primeiro lugar, a minha saudação aos senhores Cardeais presentes, ao Arcebispo da diocese, a quem agradeço pelas cordiais palavras, com as quais me expressou, em nome próprio e de todos, sentimentos de devoção, manifestando as esperanças e os propósitos de bem, presentes em cada um dos fiéis. Desejo saudar os confrades no episcopado, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas. Em particular, saúdo particularmente as Irmãs Clarissas da Segunda Ordem Franciscana, da qual fazia parte aquela que agora é inscrita no álbum dos santos. Apresento uma deferente saudação a todas as autoridades civis e militares, que com preciosa colaboração facilitaram esta minha vinda a Messina. Chegue, enfim, a minha saudação a vós todos, caros irmãos e irmãos, que viestes em tão grande número e com vossa presença festiva manifestais de modo simples, mas autêntico, a comunhão com a Igreja, com o sucessor de Pedro, confirmando assim significativamente quanto disse o vosso Arcebispo. Caríssimos, enquanto vos digo a minha complacência pelo devoto afeto que tendes pela vossa santa, e exorto a serdes como ela, testemunhas da luz que ilumina todo homem. Durante séculos a invocastes e honrastes como protetora; continuai a imitar a piedade eucarística dessa Santa; como ela, amai Maria Santíssima, cuja devoção é bem radicada em vossa terra, como egregiamente foi atestado por numerosas Igrejas a ela dedicadas na cidade e na diocese, primeiro de todas a Catedral, onde é venerada sob o título de “Senhora da Carta”, e como demonstra também a alta coluna que, ao ingresso do porto traz a estátua da Mãe do redentor. Meus caros, recorrei sempre à Virgem Santa e ela, além de favorecer o vosso assemelhamento a Jesus, vos ensinará a cumprir quanto é grato a Deus, o qual consagra aquilo que lhe é oferecido, como esta celebração eucarística recorda e cumpre.
8.”Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim” (Jo 15,4). Eis, hoje a Igreja retorna à história de um desses ramos, cuja vida se sintetiza plenamente neste “permanecer” em Cristo. “Quem permanece em mim e eu nele, dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Eis, a vossa nova santa “messinense”, filha da Sicília, parece repetir através dos séculos e das gerações este convite de Cristo: “Permanecei em mim e eu em vós” (Jo 15,4). Este convite foi confirmado pelo testemunho de Santa Eustóquia, como em antecedência, o foi pelo testemunho da vida de todos os santos desta ilha, desde os primeiros séculos do cristianismo. Hoje, este convite é dirigido pela nova santa em particular a vós sacerdotes; a vós religiosos e religiosas: que escolhestes a vida da plena consagração para servir com toda energia à edificação do Corpo místico da Igreja. É dirigido a vós esposos, para que a vossa família seja no mundo testemunho da fidelidade amorosa do Criador; a vós trabalhadores, que contribuís para levar elementos novos para uma construção comum, onde o Senhor possa dar a paz e serenidade a todos. Convida também vós, caros jovens, para que vos dediqueis ao conhecimento de Cristo, resposta verdadeira a toda pergunta e a toda espera.
9.“Permanecei em mim e eu em vós”. “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muitos frutos e vos torneis meus discípulos” (Jo 15,8). A Igreja, elevando à glória dos altares a nova santa, glorifica deus. “A glória de Deus é que o homem viva!” (Santo Irineu), que viva aquela plenitude de vida que é Cristo: a videira. Sim! O homem é chamado à glória em Cristo Crucificado e Ressuscitado. E, nesta exaltação do homem, o Pai e o “agricultou ou vinhateiro”. A santidade do homem, o fruto da cultura e o trabalho de Deus, a messe do mistério pascal, graças à qual cada coisa é restaurada em Cristo é a glória de Deus mesmo. Humilde serva de teu Mestre, Santa Eustóquia! Os teus concidadãos e toda a Igreja rejubilam-se pela glória que recebe Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, do fruto maduro de tua santidade!

Ao término da liturgia para a canonização de Santa Eustóquia Esmeralda, nos pavilhões da Feira de Messina, o Santo Padre João Paulo II dirigiu aos presentes estas palavras:
Caríssimos irmãos e irmãs, eu quero junto de vós, agradecer ao Senhor por esta celebração eucarística e por esta canonização de vossa concidadã, de vossa padroeira, Santa Eustóquia Esmeralda. Agradeço ao senhor, agradecendo ao mesmo tempo todos os meus irmãos e irmãs, a começar pelos irmãos no episcopado, os sacerdotes, os religiosos e religiosas, e todos aqueles que contribuíram na preparação desta esplêndida celebração. Especialmente agradeço o Coral. Mas quero dizer mais: agradeço toda Sicília que nos deu esta nova Santa, agradeço todas as Igrejas que estão na Sicília, deste ponto que se situal na parte oriental da ilha, vizinho a Reggio Calábria, onde amanhã devemos concluir o XXI Congresso Eucarístico nacional italiano. Não se poderia imaginar uma introdução, uma vigília melhor para conclusão do Congresso eucarístico, do que isso que vivemos juntos aqui em Messina, com esta celebração e esta canonização.Ousaria inserir em esta estupenda Liturgia Eucarística também o conjunto da beleza natural que nos circunda, aqui vizinho a nós e distante! Podemos dizer que a natureza mesma entra em nossa oração e se faz também liturgia, uma liturgia cósmica, penetrada da presença de Deus, penetrada da obra contínua do Espírito Santo; que prepara nossos espíritos humanos a entrar na realidade de Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo! Assim, queridos irmãos e irmãos, desejo que esta celebração seja para todos nós um grande encorajamento espiritual, para toda a população messinense e siciliana. O vosso Arcebispo citou no início o mundo universitário. Não podendo encontrar esta comunidade acadêmica, desejo, como conclusão desta nossa celebração, dizer a todos os seus componentes, professores e estudantes, que estavam presentes em nosso coração e em nossa memória, presentes com seu trabalho, com seu compromisso cultural que reveste tanta importância para a formação do futuro de cada homem e de cada nação. Assim também a cultura entra na oração, entra na liturgia, juntamente com a natureza, enquanto a cultura quer dizer: o homem canta a glória de Deus, porque a vocação do homem é ser glória de Deus! Seja louvado Jesus Cristo!

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