22 de ago de 2010

O livro da Paixão



O LIVRO DA PAIXÃO

Santa Eustóquia de Messina
(1434-1485)
Ordem de Santa Clara

Ms II 232 - Biblioteca Civica Ariostea - Ferrara
Ms FV 24 - Biblioteca Universitária - Messina

Tradução e introdução: Irmã Sandra Maria, osc
Digitação: Irmã Maria Renata, osc

Segundo o texto de:
Terrizzi, Francesco - Il Libro della Passione,
scritto dalla Beata Eustochia Calafatto
­Clarissa Messinese (1434-1485)
 Istituto lgnatianum, Messina 1979.

Introdução

Santa Eustóquia de Messina e o Livro da Paixão

Santa Eustóquia nasceu a 25 de março de 1434, na pequena al­deia Anunciata, perto de Messina. Filha de Bernardo Calafato e de Mascalda Romano, recebeu no batismo o nome de Esmeralda. Foi educada pela mãe no espírito de oração e piedade, no a­mor generoso para com os pobres e doentes e na vida penitente. Os irmãos, Antônio e Baldo, e o pai, rico comerciante entre o oriente e as terras do Mediterrâneo, sonhavam-na bem colocada no mundo, e a prometeram, aos onze anos, como esposa a um rico viúvo, comerciante como eles. Mas a morte prematura do futuro esposo devolveu-lhe a serenidade e deu-lhe ocasião de esclare­cer a sua vocação e aspiração à vida claustral. Depois de nume­rosas e duras lutas, pela resistência do pai e dos irmãos, in­gressou, após a morte do pai, no Mosteiro de Clarissas Urbanistas de Basicó. Tinha então dezesseis anos incompletos (l449). Inspirada pelo movimento de reforma franciscana na Sicília desejava conformar a sua vida ao espírito de perfeita observân­cia da Regra própria de Santa Clara. Superando obstáculos de todo gênero, obteve finalmente do Papa Calisto III a permissão de fundar em Messina um Mosteiro com a Regra de Santa Clara. Depois de onze anos de seu ingresso, deixa Basicó em 1460 com apenas duas companheiras, Jacoba e Lisa. Alojam-se primeiramente num velho hospital. Entre as abundantes vocações do início, atraídas pelo testemunho de vida de Irmã Eustóquia, ingressam no novo Mosteiro clariano, a própria mãe dela, sua irmã Margarida (Mita) e a sobrinha Paula. Alguns anos depois, devido às precárias condições do velho hospital que haviam adaptado por Mosteiro, transferem-se para o local onde atualmente ergue-se o Mosteiro de Montevergine, em Messina. Em 1464, Irmã Eustóquia é eleita abadessa e neste ser­viço à comunidade, se revezou com Jacoba, sua fiel companheira e biógrafa, até o final da vida. Amou as suas filhas com cora­ção de mãe, pronta a todo sacrifício e com a ternura de quem gerou no espírito. Lutou por uma autêntica vivência da pobreza evangélica franciscana. Interessou-se grandemente pela espiritualidade de Santa Clara, obtendo para seu Mosteiro, cópia dos escritos da fundadora da Ordem, no Protomosteiro de Assis. Este é o famoso Códice de Messina, no qual se encontram duas versões da Regra de Santa Clara (uma em latim, outra em siciliano), o Privilégio da Pobreza, a Forma de Vida de Reinaldo e sua aprovação por Inocêncio IV, o Testamento de Santa Clara, a Bênção, e uma Bula de Eugênio IV. Deve-se ao empenho de Santa Eustóquia a tradução da Regra em dialeto siciliano, o que facilitava o estudo e a leitura para as Irmãs que não sabiam o latim. Durante a sua vida, a fama de santidade e os vários milagres que realizou atraíram o afeto e a estima do povo messinense. Sua fama cresceu ainda mais, nos séculos, após sua morte, a 20 de janeiro de 1485, depois de longos períodos de enfermidade, em que procurou se identificar profundamente com os sofrimentos de Jesus. Canonizada por João Paulo II a 12 de junho de 1988 em Messi­na, Santa Eustóquia torna-se para a Ordem das Clarissas mais um sinal e um testemunho claro de alguém que seguiu com fidelidade radical o ideal evangélico de pobreza e fraternidade que empolgou Francisco e Clara. A característica principal da experiência espiritual e mística de Santa Eustóquia, nos passos mesmos de Clara e Francisco, foi um amor profundo à Paixão de Jesus. Escreveu, a pedido de suas irmãs, que a ouviam continuamente falar dela, uma série de meditações, entituladas “Livro da Paixão”. A Legenda de Santa Eustóquia, escrita à raiz de sua morte por Jacoba Policino, faz menção explícita de um “Livreto da Paixão”, escrito por Eustóquia. Dele, no entanto, se perdeu todo traço, durante muito tempo... Pesquisando em bibliotecas antigas de várias cidades italia­nas, Francisco Terrizzi, SJ finalmente encontrou na Biblioteca Cívica Ariostea, de Ferrara (onde existe também o manuscrito mais antigo da Legenda) em 1972, um manuscrito com o título: “Meditazione sopra la Passione di Messer Jhesu Xo”, o qual identificou como uma cópia do Livro da Paixão, feita em torno da mesma data daquela da Legenda. Este texto manuscrito, redata­do em dialeto toscano, mas com inúmeros sicilianismos. Francisco Terrizzi coordenou uma edição desta obra, em 1979 na qual faz abundantes comparações com as informações da Legenda e tenta provar com análises aprofundadas em diversos sentidos, a sua tese de que a autora destas meditações é real­mente Eustóquia de Messina. Nesta obra, a Paixão, precedida de um prólogo, é proposta em dezesseis capítulos: inicia com a descrição de Jesus, segue-o no triunfo de Jerusalém, na expansão amorosa do cenáculo, na a­margura da traição, na desolação do abandono dos apóstolos, nas humilhações da via dolorosa, que culminam na crucifixão. Deixa-o, finalmente, deposto da cruz e fechado na solidão do sepulcro, do qual se afasta por último a Mãe dolorosa. Num estilo todo particular, esses escritos ressaltam verda­deiramente a genuína espiritualidade de Eustóquia, seus costu­mes de vida, seu amor enamorado a Jesus Crucificado e o seu profundo desejo de fazer chegar a uma assimilação e proximidade de Jesus pobre e sofredor, aqueles que meditam e contemplam a Paixão.

Terrizzi, Francesco - Il Libro della Passione, scritto dalla Beata Eustochia Calafatto
­Clarissa Messinese (l434-1485) Istituto lgnatianum, Messina 1979.

O Livro da Paixão
Santa Eustóquia de Messina, Clarissa (l434-1485)

1.Em nome do Senhor Jesus. Começa a paixão do Senhor Jesus Cristo, como nela se deva meditar. E antes o prólogo e etcétera. A qualquer alma devota, que por fervente amor deseja unir-se a Deus e tornar-se esposa de seu dulcíssimo Redentor Jesus Cristo, é necessário que sobre todas as coisas se esforce com suma diligência e piedosa compaixão, em todas as horas e em todo o tempo, por ter na memória a sua sacratíssima paixão e, com o pensamento contínuo, a ela volver, pois não há algo que prenda o afeto amoroso em Deus, quanto a memória de sua paixão. Diz São Bernardo: Sobre todas as coisas, ó bom Jesus, eu faço digno de amor o cálice que tu bebeste, obra de nossa redenção... Este é aquele que tudo atrai a si o nosso amor; este certamente é aquele que mais lisonjeiramente atrai a nossa devoção; e esta mais justamente exige e mais fortemente retém, e mais grandemente atrai o afeto.
2. Mas, porque é coisa difícil, especialmente àqueles que não têm a mente exercitada por longa experiência, ter continuamente na memória a paixão, a alma desejosa de entrar no envolvente jardim da contemplação e da oração mental, que excede toda outra meditação da paixão de Cristo, portanto, alguma vez ao dia e também à noite, e ao menos à noite após completas e depois de matinas, vão a certo lugar afastado do barulho e das pessoas, e recolha a sua mente em si mesma, afastando-a de todo pensamento terreno e medite a paixão particularmente, e por distintas partes, devotamente e com compaixão até às lágrimas, de passo em passo, com humilde afeto para com o seu sofrimento e aflição, pensando e imaginando-se estar presente a todos aqueles atos que meditará acerca da paixão.
3.Além disso, para melhor imprimir-se na mente a história e o fato da mesma paixão, ser-lhe-á muito útil criar na mente todos os lugares e as pessoas necessárias, que intervieram na paixão.
Assim se deve formar na mente uma cidade, a qual seja claro e pareça ser a cidade de Jerusalém e nesta forma formar-se-ão todos os outros lugares, como sejam: o templo, o cenáculo, onde Cristo ceou com os discípulos, a casa de Anás, de Caifás e de Pilatos, e todos os outros lugares necessários; e assim os lugares próximos, como o horto onde orava Cristo sobre o monte das Oliveiras, a cidade de Marta e de Maria, isto é, Betânia, e o lugar onde o Senhor Jesus foi crucificado, isto é, o Monte Calvário.
4.Também será muito útil, para mais enamorar-se do Senhor Jesus, imaginar na mente a sua forma, a estatura do seu corpo, a qual descreveremos como se fosse de fato. Depois sugeriremos, de parte em parte, toda a paixão. É necessário, ainda, que a alma que devotamente se exercita nesta meditação, sempre se imagine de estar presente, e assim se comporte no falar, no sofrer e no olhar, como se tivesse diante dos olhos o seu Senhor que sofre. E assim o Senhor estará presente, se ele for pensado como se estivesse, e receberá os votos e os atos de sua esposa devota. E não se queira transcorrer às pressas a paixão, mas sobre cada ato se fará demora e morada. E, se a alma sente doçura, compaixão ou devoção em alguma passagem, ali fique e deleite-se na graça, até que seja prazer ao dulcíssimo Esposo dá-la; e faltando esta, passe a outro, por ordem, meditando sempre com demora e piedosa compaixão.
5. Mas saiba a alma que quer sentir gosto na paixão, e ter proveito nesta ciência, que segundo diz São Bernardo, é sobre todas as ciências, será necessário que com grandíssima solicitude, se abstenha do alimento delicado e de bebida imoderada, e segundo a necessidade se utilize de um e de outro com temperança. E ao mesmo tempo é necessário que se guarde do muito falar e da alegria vã e inconsequente, porque não convém àquele que quer experimentar a dor de Cristo, ficar inutilmente nas palavras, no riso, nos jogos e na vã alegria; e, brevemente dizendo, da solicitude temporal e do deleite vem a consolação carnal; por isso, não combinam bem juntas a consolação da carne e a contemplação da paixão do Senhor, pois que têm nomes contrários.
6. Assim sendo, vamos ao nosso propósito, descrevendo a paixão, por partes e por capítulos, sugerindo algumas admoestações, para levar a alma à devoção. E antes descreveremos a forma de pessoa do Senhor Jesus

Da forma, estatura e características do Senhor Jesus Cristo.
Capítulo Primeiro

7.Segundo o que se encontra escrito, no tempo de imperador Otaviano, sendo costume que de todas as partes do mundo, aqueles que eram das províncias sujeitas aos romanos, escreviam aos senadores de Roma todas as novidades que ocorriam pelas partes do mundo, um chanceler, chamado pelo nome de Lentulo, tendo o ofício nas partes da Judeia de Herodes, escreveu aos senadores de Roma desta forma:
8. Apareceu em nossos dias, e está ainda entre nós um homem de grande virtude, chamado Jesus Cristo, o qual é chamado pelas gentes profeta da Verdade, e cujos discípulos chamam de Filho de Deus. Ele ressuscita os mortos e cura as enfermidades: homem de estatura mediana, e atraente sobre todos os outros, tendo uma face venerável, a qual os guardas podem temer e amar; tendo os cabelos da cor de uma avelã madura, lisos quase até as orelhas e para baixo, cabelos pendentes, crespos e um pouco mais louros e resplandecentes, caídos pelos ombros; tendo a divisão em meio à cabeça, segundo o costume dos nazarenos; a fronte larga e claríssima, com a face sem tensões e qualquer mancha; adornado de um avermelhado temperado. Sobre o nariz e a boca não há nenhuma observação a fazer. Tem a barba espessa e de pelo jovem de primeira barba, e de cor semelhante a seus cabelos; não longa, mas dividida em duas partes.. Tem o aspecto simples e maduro, com olhos diferentes e cla­ros. Nas repreensões, terrível; nas admoestações, agradável e amável. Alegre, observando sempre a gravidade; jamais foi visto rir, mas chorar sim. Na estatura do corpo, grande, alto e ereto, tendo as mãos e braços agradáveis de se ver. No falar, grave, claro e modesto entre os filhos dos homens.”

9.Como o Senhor Jesus chegou a Jerusalém sobre o jumento,
acompanhado pelas turbas; e como afastou aqueles que vendiam e com­pravam no templo de Deus.
Capítulo Segundo

Aproximando-se o termo, o qual a divina Providência eterna­mente havia estabelecido, em que o seu Filho Unigênito, encarnado no ventre virginal, viesse a sofrer a paixão e a morte horrível da cruz para resgatar a geração humana, este benigníssimo Jesus, como em todo o tempo de sua vida e em todos os seus atos demonstrou suma humildade, assim perto de seu fim, chegando a paixão, tomou princípio de humildade, vindo sobre um jumento à ci­dade de Jerusalém, onde deveria receber a morte.
10.Havendo ele feito a ceia, seis dias antes da Páscoa, com os seus discípulos em Betânia, cidade de Maria e de Marta e de Lázaro, cidade que distava cerca de duas milhas de Jerusalém, e feita a mesma ceia em casa de um certo Simão leproso, amigo e doméstico de Maria e de Marta, e na qual Maria Madalena derramou um frasco de unguento precioso sobre a cabeça do Senhor Jesus, e feita a ceia, partindo com os discípulos e indo sobre o monte das Oliveiras, onde sempre à noite se reuniam, o qual estava pouco distante da cidade de Betânia, depois, na manhã do dia se­guinte, ou seja, a manhã de domingo, que é o domingo das oliveiras, esse dulcíssimo Jesus, chamando os seus discípulos, disse-lhes: “Ide à cidade que está diante de vós, onde encontrareis uma jumenta amarrada, com o seu jumentinho; soltai-o e trazei-o a mim” E se alguém vos contradisser, dizei-lhe que o Mestre necessita dele e imediatamente vos deixara trazê-lo.”
11.E indo os obedientes discípulos, encontraram tudo como lhes havia dito o Mestre. E recebida a licença dos senhores dos animais, trouxeram a um e outro ao seu Mestre. E subindo o doce Jesus sobre a jumenta, começaram a descer o monte e caminhavam para Jerusalém. E tendo caminhado um pouco, desceu da jumenta e montou sobre o jumentinho. E, chegando ele assim acompanhado e circundado de seus discípulos, estando na descida do monte, grande multidão de pessoas, as quais tinham ido a Betânia para ouvirem a novidade do milagre de Lázaro, que havia ressuscitado; ouvindo que o Senhor Jesus descia do monte vieram ao seu encontro, e para fazer-lhe maior honra, alguns deles, despojando-se das vestes, as estendiam sobre a terra, para que o jumentinho sobre elas passasse. Alguns outros erguiam galhos de oliveira e cortavam ramos e folhas e os lançavam por terra; e parte andando adiante, parte seguindo, gritavam cantando: “Hosana, Filho de Davi; bendito aquele que vem em nome do Senhor.” E com estes louvores e cantos, acompanhando-o, introduziram-no nas portas de Jerusalém. E vendo o Senhor Jesus a cidade de Jerusalém, movido de compaixão, começou a chorar sobre ela. E, entrando pela sua porta, os fariseus e escribas, tendo-lhe inveja de tanta honra, diziam: “Mestre, repreende os teus discípulos; Tu não ouves o que eles dizem?” E as criancinhas diziam: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor.” Aos quais ele respondeu: “Em verdade vos digo que, se estes calarem, as pedras gritarão.”
12.E tendo entrado então no templo, e ali encontrando aqueles que trocavam dinheiro e que vendiam bois e ovelhas, os expulsou para fora do templo, dizendo: “A minha casa e casa de oração e vós a fizestes covil de ladrões.” E depois, tendo curado muitos enfermos, cegos e coxos, que estavam no templo, disputou com os escribas e fariseus. E sendo já hora das vésperas, não havendo ninguém que o convidasse à sua casa, partiu de Jerusalém com os seus discípulos e retornou a Betânia, à casa de Marta. E depois, à noite, segundo o costume, recolheu-se com seus discípulos sobre o monte das Oliveiras, admoestando-os e ensinando-os.
13.Assim, pensa aqui, alma, com piedosa compaixão, a grande humildade do doce Jesus, o qual nos mostra, por seu exemplo, como é falso o apetite de honras mundanas, que, vendo ele vir-lhe ao encontro a grande turba para fazer-lhe honra, tomou a vileza de um jumento, vilíssimo animal; pois era esse jumento reservado ao serviço comum dos pobres. Pensa aqui devotamente, com piedosa compaixão e considera os discípulos que circundavam o seu Mestre, plenos de grande alegria, vendo renderem-lhe tanta honra. E tu, juntamente com eles, aproximando-te do jumento, acompanha o suavíssimo Jesus até Jerusalém, e dele não te afastes, pensando-te bem-aventurada de poder tocar a fímbria de suas vestimentas. Alem disso, tem compaixão do teu Senhor, que, sendo-lhe feita tanta honra honra, não encontrou em toda a cidade, quem o convidasse à sua casa, e oferecesse a sua hospitalidade. E voltando-te para ele, com lágrimas e humildade, fala-lhe e dize-lhe: “Ó dulcíssimo Jesus, faze-me digna de receber-te como hóspede e dize-me aquilo que disseste a Zaqueu: ‘Desce, que hoje me convém pousar em tua casa’. Faze-me digna de receber-te em meus braços, doce Jesus, que eu possa dizer aquilo que está escrito nos cânticos: ‘Ó meu amado, descansa em meu peito; agarrei-me a ele e não o largarei’.” (Ct 2,16; 3,4)

14.Como na segunda e terça-feira Jesus retornou a Jerusalém,
e como na quarta-feira foi vendido por Judas aos Judeus.
Capítulo Terceiro

Na manhã seguinte, isto é, segunda feira, o dulcíssimo Jesus, com seus discípulos, retornou a Jerusalém e esteve o dia todo no templo a disputar com os judeus; à noite retomava a Betânia e ceados em casa de Marta, depois iam para o monte, permanecendo ali à noite. E assim fez no dia seguinte, isto é, na terça-feira. Na quarta-feira não tornou mais a Jerusalém, mas permaneceram em casa de Marta, ou sobre o monte. E naquele dia os príncipes dos sacerdotes e escribas congregados no palácio de Caifás, não podem do mais suportar por inveja o Senhor Jesus, fizeram conselho de matá-lo, e diziam: “Guardemo-nos de fazer isto no dia da festa da Páscoa, que se aproxima, para que não se faça tumulto entre o povo.” E fazendo esses príncipes esses discursos, eis Judas, iniquíssimo, o qual havendo deixado Cristo com os outros discípulos, e vindo à cidade, e tendo sabido que os judeus se congregaram para tratar da morte de Cristo, entrou junto deles e disse: “O que me quereis dar, e eu vo-lo darei nas mãos? “Os quais, vendo e ouvindo que ele era dos discípulos, se oferecia para traí-lo, e ele, pedindo-lhes somente trinta moedas, ofereceram-lhe e prometeram dar-lhe ajuda quando lhes pedisse.
15.Pensa aqui, devotamente, a dileção e o amor do Senhor Jesus para com as suas diletas Maria e Marta, em casa das quais se reunia; e fala para o amado dizendo: “ó dulcíssimo Senhor, como foram bem-aventuradas aquelas tuas diletas, as quais fizeste dignas que fossem tuas hospedeiras.” E pensa com que diligência serviam ao seu amado Mestre; e especialmente como Maria não podia separar-se dele, estando também atenta ao seu doce contemplar. E assim tu, semelhantemente, como se te fosse presente com Maria, olha e contempla o benigníssimo Esposo, tocando-o e, com o rosto banhado inteiro de lágrimas, dele deleitando-te, serve-o juntamente com Marta, dando-lhe água para as mãos e, pedindo-lhe que te dê aquela água da qual, falando com a samaritana, dizia: “Quem bebe da água, a qual eu darei, não terá sede eternamente”. Ó doce Jesus, dá à minha cabeça água e aos meus olhos fontes de lágrimas, para que banhe inteiros os teus pés, tanto que de ti ouça aquela suavíssima palavra: “Perdoados te são os teus pecados.”


16.Como na quinta-feira, os discípulos prepararam a ceia e como na ceia Jesus lavou os pés aos seus discípulos.
Capítulo Quarto

À quinta-feira, que se chama o primeiro dia dos ázimos, estando o Senhor Jesus ainda com seus discípulos sobre o monte das Oliveiras, vendo os discípulos aproximar-se a festa dos Judeus, na qual, segundo o costume, se matava o cordeiro e comia-se com os ázimos, disseram ao Senhor Jesus: “Mestre, onde queres tu que preparemos para comer a Páscoa?” Aos quais ele respondeu: “Entrai em Jerusalém e, chegando, vos virá ao encontro um homem que leva uma ânfora de água. Segui-o até a casa onde ele entrar, e dizei ao dono da casa: ‘O Mestre diz: Onde é a sala onde eu comerei a Páscoa com os meus discípulos?' E ele vos mostrará um cenáculo grande e naquele lugar preparai-a.” E indo eles, encontraram como o Mestre lhes havia dito e assim dispuseram e preparando aquilo que precisava, voltaram para junto do Mestre, referindo-lhe o que haviam feito.
E pela hora das vésperas, partindo o benigníssimo Jesus com todos os seus discípulos, vieram a cidade, àquele local onde estava preparado, isto é uma casa de um notável e rico cidadão familiar e oculto discípulo do Senhor Jesus. A esta ceia vieram ainda alguns outros discípulos do Senhor; e estando tudo preparado, pôs-se o dulcíssimo Mestre a sentar-se à mesa com os seus doze apóstolos somente, e os outros serviam e traziam os alimentos, os quais aquele gentil homem havia feito preparar, e especialmente, segundo o costume da Páscoa, o cordeiro assado, e as ervas agrestes com o pão ázimo. Era esta mesa quadrada, baixa, segundo o costume dos judeus, a qual está hoje em Roma, e é larga, para cada um, um lado do quadrado, dois braços e um palmo; de modo que apertadamente podiam estar três discípulos em cada lado. E o Senhor Jesus se pôs num lado e começaram a comer. E depois que haviam comido um pouco, o piedoso Jesus, conhecendo que era chegada a hora de passar deste mundo ao Pai, querendo mostrar a seus discípulos o amor que sempre lhes tivera,levantou-se da mesa e despojando-se do manto que trazia e, pegando um pano, cingiu-o a si; depois, com as suas mãos santíssimas, tomou da água, a qual havia ordenado que fosse morna, e lançou-a na bacia, e olhando os discípulos e, fazendo por reverência, ajoelhando-se no chão, começou por Pedro a lavar-lhes os pés. Havia feito os discípulos levantarem-se da mesa, levando-os a um outro lugar. E Pedro, vendo o seu Mestre e Senhor reclinando-se adiante para lavar-lhe os pés, cheio de espanto, lhe disse: “Ó Senhor que é isto que me fazes? Vais tu lavar os pés?” Ao qual, o manso Jesus respondeu: “Pedro, aquilo que eu faço, tu não sabes agora, mas sabê-lo-ás depois.” E Pedro respondeu : “Senhor, tu não me lavaras os pés jamais.” E Jesus lhe disse: “Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo.” Então Pedro, amedrontado por esta resposta, estendendo-lhe os pés, disse: “Senhor, não si os pés, mas as mãos e a cabeça.” E, tendo lavado os pés a Pedro, lavou-os a todos os discípulos e a Judas o qual, pela resposta que havia dado a Pedro, não teve coragem de contradizer. Depois, retomando à mesa, e sentados como antes, o suavíssimo Jesus começou a falar a eles, e disse: “ Sabeis vos o que eu vos fiz? Vós me chamais Senhor e Mestre, e dizeis bem porque assim        o sou. Se eu, então, que sou vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, assim vós deveis lavar os pés uns dos outros; porque      eu vos dei o exemplo que, como eu fiz, façais vós.”
17.Considera aqui, alma devota, que em Jesus te queres deleitar, todos os atos maravilhosos que fez nesta ceia.

E, se queres experimentar desta ceia suavíssima, põe-te a servir o teu suavíssimo Esposo. Considera a grande humildade do manso Jesus, o qual, sendo Senhor e Mestre de todos, se humilhou a lavar os pés. Vê quanto é grande a sua humildade. Vê que se despoja, como fazem os servos. E tu, devotamente tomas as tuas vestimentas, tendo-lhes estreitadas em teu peito. Vê a sua grande limpeza, que ele cinge em torno de si um pano: e tu devotamente põe-lhe este quando o pede. Vê a profunda humildade, que ele mesmo põe a água na bacia: e tu, devotamente, ajuda a jogá-la. Vê como humildemente se ajoelha aos pés dos discípulos: e tu, humildemente, com pranto, ajoelha-te diante de teu Esposo, que por ti tanto se humilhou. Olha ainda a sua grandíssima benignidade para com o seu traidor: humilhou-se a lavar os seus pés. E brevemente considera todos os atos que fez, e a todo ato faze presente, se queres ter devoção.

18.Como na ceia comunicou aos seus discípulos e instituiu o sacramento de seu Corpo e de seu Sangue;
e como predisse que deveria ser traído.
Capítulo Quinto

Lavados que foram os pés aos discípulos, e depois estando a comer, tomou o Senhor Jesus do pão, que estava sobre a mesa e, rendendo graças a Deus, o abençoou, e fazendo doze partes, deu-as a cada um dos discípulos, dizendo: “Tomai e comei; este é o meu corpo que por vós será traído. E fazei isto em minha comemoração e memória.” Depois tomou o cálice e nele colocou vinho, rendendo graças, igualmente deu-o a todos, dizendo: “Bebei todos deste cálice porque e o meu Sangue do Novo Testamento, o qual por vós e por muitos será derramado, em remissão dos pecados.”
19.Depois disto, tendo comunicado, o doce Jesus, turbado em espirito, voltando-se para os discípulos, disse-lhes: “Em verdade, em verdade vos digo, que um de vós, que come comigo, deverá me trair.” Então os discípulos, ouvindo tal palavra, diziam: “Senhor, serei eu?” O Senhor então respondeu: “Um daqueles que põe comigo a mão no prato, é aquele que me trairá.” Mas por isso os discípulos não puderam compreender quem fosse, pois naquela hora mais de um colocava a mão no prato. E Judas, então, que era um daqueles, disse: “Mestre, sou eu?” Então o piedoso Jesus, não porém manifestando, disse: Tu o dizes “, como se dissesse: “Tu mesmo o dizes, não eu.” Certamente é de crer que se o benigno Jesus tivesse manifestado o seu traidor, os outros discípulos não teriam podido resistir de saltar sobre ele. Pois, desejando todos saber quem fosse, Pedro fez sinal a João Evangelista, o qual o Senhor Jesus amava, e João, pela palavra que o Mestre havia dito, tinha se inclinado sobre o peito de Jesus para perguntar ao Mestre quem seria aquele. E João, inclinado sobre o peito do Mestre querido, disse: “Senhor, quem é aquele que te deve trair?”Ao qual o caro Mestre respondeu: “Aquele a quem darei o pão tinto, é esse.” E imediatamente, tomando uma fatia de pão, e estendendo-a deu-a a Judas; recebida a mesma, o demônio entrou nele. E então, voltando-se para Judas, o Senhor Jesus disse: “Judas, aquilo que deves fazer, fazei-o logo.” A tais palavras, nenhum dos discípulos compreendeu. Pois Judas era o ecônomo, pensaram que o Senhor houvesse ordenado que comprasse alguma coisa para a festa, ou que desse alguma coisa para os pobres.
20.Aqui permanece, alma devota, e todas as coisas nomeadas rumina devotamente, e não sem lágrimas, pois o amoroso Esposo muito se deleita de lágrimas derramadas por seu amor na oração. Considera antes o admirável mistério de seu Corpo e Sangue que Cristo fez naquela santíssima ceia, e nota como este sacramento instituiu para que se tivesse memória, e da sua santíssima paixão, e fala ao teu dileto Esposo, e dize-lhe: “Como deveria eu esquecer jamais de ti e da cruz, tendo continuamente diante de mim este memorial do teu sacramento? Mas dá-me, doce Senhor, a graça de dignamente recebê-lo, e que experimente a sua doçura e suavidade, e tome o exemplo do ato que tu fizeste aos teus discípulos diante do que comunicaste, isto é, que tu lavas- te seus pés. Que eu lave e limpe primeiro as minhas mãos e meus pés pelas lágrimas da compunção e devoção interior; para que eu possa dignamente receber este teu sacramento e ter contínua memória de tua morte.”
21.Considera também com piedosa compaixão a amarga palavra que o doce Jesus reservou, depois da ceia, aos seus discípulos, dizendo: “Um de vós me há de trair.” Pensa quanta dor cada um sentia, ouvindo que o seu Mestre lhes deveria ser tirado. E tu, juntamente com eles, chora, derramando piedosas lágrimas, dizendo: “Quem te deve trair, doce Mestre, benigno Senhor quem te separará de mim? Quem te tirará de mim, dileto Jesus ? Leva-me contigo, que eu morra contigo.”

22.Como Judas, partindo de Cristo e dos apóstolos, foi aos Judeus e dos discursos que fez o Mestre
com os discípulos depois da ceia.
Capítulo Sexto

Judas, ouvido a palavra de Cristo, de súbito levantou-se da mesa instigado pelo demônio e foi aos escribas e fariseus e pediu-lhes ajuda, isto é, gente armada, para realizar a sua iníqua promessa. Mas o doce Jesus, permanecendo à mesa com os onze discípulos, começou a falar-lhes e com doces admoestações a consolar-lhes, sobretudo confortando-lhes que deveriam ter juntamente amor e dileção, e dizendo-lhes que brevemente deveria afastar-se deles e que todos o abandonariam. E, respondendo Pedro que se todos o abandonassem, jamais ele se afastaria, ele lhe disse: “Pedro, eu te digo que hoje, antes que o galo cante duas vezes, tu me terás negado três.”
E assim, estando em doces e longos discursos, sendo já noite, disse: “levantai-vos e partamos daqui.” E levantando-se, e chorando amargamente os discípulos, e ele com suavíssimos discursos confortando-os, foram para fora de Jerusalém, em direção ao monte das Oliveiras, e entraram no horto, onde costumava reunir -se à noite com os seus discípulos.
23.Considera e pensa devotamente os doces e deleitáveis discursos do dileto Jesus com os discípulos. Considera como estavam atentos às suaves palavras do caro Mestre, das quais Pedro já havia dito: “Senhor, tu tens palavras de vida eterna.” Pensa como os seus discursos não eram senão de amor. E tu, fala ao amoroso Esposo, dizendo: “Dá-me, Senhor, este amor; que eu ame sobre todas as coisas, e possa dizer com o Apóstolo: “Quem poderá me separar da caridade de meu Jesus? Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem perseguições, nem fome, nem outra tribulação jamais me poderão separar do teu amor.” Pensa também devotamente que sofrimento era para os discípulos quando o seu Mestre caminhava para a morte: e como chorando o seguiam, indo ao horto. E assim tu, chorando juntamente com eles, seque o caro Jesus dizendo: “Eis que contigo quero ir à morte, preparada a seguir-te na paixão e na morte. Eis, renuncio a mim mesma e tomo a minha cruz, e quero te seguir. Sustenta-me, doce Senhor, e aumenta em mim o desejo, e liga-me contigo em amor, de modo que já mais possa me afastar de ti.”

24.Como o Senhor Jesus esteve no monte das Oliveiras, e da oração que fez três vezes no horto.
Capítulo Sétimo

Tendo chegado o dulcíssimo Jesus sobre o monte das Oliveiras, e entrando no horto, fez sentarem em uma parte deste os discípulos, e chamando três deles, isto é, Pedro, Tiago e João; afastou-se dos outros por um pouco de espaço, e estando com estes, começou a apavorar-se todo, e pleno de dor; e voltando para os três discípulos, fala e diz: “Filhinhos meus, tende compaixão de mim, porque a minha alma está triste até à morte; estai um pouco aqui e velai comigo, até que eu vá ali orar.” E, afastando-se desses quanto seria um tiro de pedra, pondo-se de joelhos sobre a terra, começou com lágrimas a orar ao Pai e dizer: “Meu Pai, todas as coisas te são possíveis, tira de mim este cálice da amarga paixão, que eu devo sustentar. Nada menos, seja feita não a minha vontade, mas a tua.”
25.E feita a oração, permanecendo um pouco, levantando-se, retornou aos três discípulos e encontrando-os a dormir, fala a Pedro que se mostrara mais fervente, e diz: “Pedro, tu dormes? Que é isto, que não entres em tentação, porque o espírito pronto, mas a carne enferma.” E deixando-os, afastou-se ainda deles para um outro lugar distante um tiro de pedra, e fez oração, como antes. E levantando-se da oração, retornou ainda aos discípulos, e, encontrando-os a dormir, não soube ele o que dizer. E, deixando-os ainda, foi a um outro lugar, igualmente distante, e prostrando-se por terra, entrou em agonia. E, sendo-lhe apresentadas diante dele todas as penas que deveria suportar, orando mais longamente, pela dor que sentia, veio-lhe um suor de sangue que todo o banhava, e corria por terra. E então, apareceu-lhe o anjo do céu e o confortava. E ele, confortado, levantou-se e tornou aos discípulos que havia deixado, e encontrando-os a dormir, disse-lhes: “Levantai-vos, agora basta; eis que quem deve me trair está perto. O Filho do homem será traído na mão dos pecadores.”
26.Permanece aqui, alma devota, e pensa com sentimento aquilo que fez o doce Jesus no horto.
Antes considera, mas não sem abundância de lágrimas, o teu dileto Jesus, quando começa a orar, como se muda inteiramente na face, e como ele, apenas podendo falar, todo apavorado, diz: “A minha alma está triste até à morte.” E tu, amargamente chorando, aproxima-te dele e dize-lhe: “Ó doce Senhor, ó dileto Mestre, porque tens medo? Mas, porque vieste a este mundo, senão para receber a morte, e para salvar-me? Ó caro Senhor, tu foges à morte? Quem pagará o meu pecado?” Depois volta-te para os discípulos e diz-lhes: “Levantemo-nos e oremos, e choremos, que o caro Mestre nos será tirado.”
27.Olha ainda, alma dileta, e considera o modo de oração de teu amoroso Jesus, e dele toma o exemplo em teu orar; como humildemente se inclina em terra, e como pede que seja feita a vontade do Pai, não a sua. Vê como ora com grande fervor, até que lhe brotam gotículas de sangue; não uma vez, porém mais, retoma a oração. Pega o exemplo em todas estas coisas, e daqui não te afastes; que tu o acompanhes com grande pranto na tua oração. E fala com ele, dizendo: “ó delicadíssimo Jesus, em quanta ansiedade vejo-te colocado, que o sangue corre daquela face santíssima.” Ó face belíssima, na qual desejam os anjos olhar, como foste tornada banhada e ensanguentada. Ó meu coração de ferro, porque não te rompes, tendo compaixão pelo teu dileto, posto em tanta pena e aflição? Minha alma tem compaixão de teu doce Esposo, que tendo tão grande suor, não tem quem lhe dê toalha para enxugar aquela face delicada, toda ensanguentada. Também considera o fim da oração, como foi pelo anjo confortado; e ainda que não houvesse pedido, não lhe faltou a visitação angélica; e apareceu-lhe o anjo para demonstrar que, às nossas orações, feitas com humildade, o anjo está presente, e as oferece diante de Deus.

28.Como o Senhor Jesus foi preso no horto e levado, descendo o monte, dentro de Jerusalém.
Capítulo Oitavo

Falando o Senhor Jesus com os seus discípulos, assim adormecidos, eis chegar Judas ao longe, tendo consigo uma grande turba de servos, a qual tinha conseguido dos príncipes e fariseus; vindo com bastões, lanças e espadas e lanternas; e porque também havia tirado Judas servos de Pilatos, os quais não conheciam Jesus e também porque são Tiago menor era parecido com Cristo, para que não errassem e prendessem um pelo outro, tinha             lhes dado um sinal, dizendo: “Aquele que eu beijar com a minha boca, é ele; prendei-o e levai-o cautelosamente, que não vos fuja das mãos. E vendo o Senhor Jesus virem para ele, foi ao encontro e disse a Judas, que vinha adiante: “Amigo, o que vens fazer?” Mas o iniquíssimo traidor, fingindo-se de ser amigo, aproximou-se dele para beijá-lo. E Cristo lhe disse: “Judas, tu trais com um beijo o Filho do homem?” E, chegando-lhe adiante os servos para prendê-lo, disse a eles: “Quem vós procurai?” E eles responderam: “Jesus Nazareno.” Disse o Senhor Jesus: “Sou eu.” E imediatamente, ouvida esta palavra, caíram por terra, retornando atrás. E fazendo-os levantar, perguntou-lhes ainda: “Quem vós procurais?” E aqueles, respondendo: “Jesus Nazareno”, também caíram por terra, dizendo o Senhor Jesus: “Sou eu.” E levantados, lhes disse: “Eu já vos disse que sou eu; se então vós me procuras, deixai irem estes meus discípulos”. Então os servos prenderam o doce Mestre, e ligaram-no apertadamente, lançando uma corda ao pescoço. Pelo que os discípulos, abandonados, vendo preso o Mestre, disseram: “ Mestre, queres que nós te ajudemos com nossas espadas?” E Pedro, não esperando a resposta, por grande fervor, brandindo a sua espada para ferir um daqueles servos na face, feriu-lhe a orelha. E voltando-se o Senhor a Pedro, disse-lhe: “Põe a tua espada em seu lugar porque qualquer um que pegar a espada, perecerá pela espada. O cálice que me deu o Pai, tu não queres que eu o beba? Não penses que eu não possa pedir ao meu Pai e imediatamente me mandará mais que doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as escrituras, porque é necessário que assim se faça?” E tomando a orelha do servo, colocando-a no seu lugar, sarou-a. Depois, voltando-se à turbas, disse-lhes: “Vós viestes para prender-me com lanças e espadas, como se eu fosse um ladrão. Eu estava convosco no templo pregando, e não me prendestes nunca. Mas, esta é a vossa hora e da potência das trevas.”
29.Pensa agora devotamente, e com lacrimal compaixão, como o teu doce Jesus traído por Judas com o beijo, e grita contra ele: “Ó traidor péssimo, como não temes aproximar aqueles lábios imundíssimos e poluídos daquela boca santíssima, a qual é plena de toda doçura e suavidade?” Vê também a mansidão do piedoso Jesus, que chama amigo o seu traidor, e não expulsa de si, querendo ele trair com o beijo. Chora também, e sofre com os discípulos, pensando quanta dor receberam quando viram prenderem o seu Mestre. E vê o fervente amor de Pedro, o qual por ele se expôs à morte. Pensa particularmente em cada coisa, e com grande compaixão.

30.Como o Senhor Jesus é levado para Jerusalém: e antes à casa de Anás, onde lhe foi dada uma bofetada.
Capítulo Nono

Tendo os servos pérfidos, ligado o benigno Jesus, levaram-no com grande ímpeto e furor na descida do monte, puxando-o pela corda que tinha ao pescoço, e pelas cordas amarradas às mãos, puxando-o com grande força, tal que as sandálias que tinha lhe saíram dos pés e permaneceram sobre o monte. E os discípulos, todos amedrontados, o abandonaram; e aqueles iníquos o levaram para dentro da cidade, seguidos ao longe pelos discípulos Pedro e João evangelista. O mesmo João, estando sobre o monte quando prenderam o Mestre, prenderam também João pelas vestimentas; mas ele, deixando as vestes, fugiu nu, e depois retornou e juntamente com Pedro seguia de longe o caro Mestre, que levavam amarrado. E tendo entrado dentro de Jerusalém, os servos, passando di ante da casa de Anás, sogro de Caifás, o qual era pontífice naquele ano, levaram-no e o apresentaram ao mesmo Anás, o qual, perguntando-lhe de sua doutrina e de seus discípulos, o manso Jesus respondeu e disse: “Eu falei abertamente ao mundo, e em o culto nada disse. Por que perguntas a mim? Pergunta àqueles que me ouviram, porque sabem o que eu disse.” E tendo assim respondido, um dos servos, que estava ali presente, deu-lhe uma grande bofetada, dizendo-lhe: “Então, deste modo tu respondes ao pontífice?” E então, o Cordeiro mansíssimo, humildemente respondendo-lhe, disse: “Se eu falei mal, dê-me testemunho; mas se falei bem, por que me bates?” E tendo entrado o Senhor Jesus em casa de Anás, Pedro e João que o seguiam, também entraram na casa, porque João era conhecido dos da casa e também introduziram Pedro dentro. O mesmo Pedro, tendo-o visto uma serva que estava à porta, disse-lhe: “Não és tu dos discípulos deste homem?” E Pedro respondeu: “Mulher, eu não sei o que tu dizes.” E assim, pela primeira vez Pedro negou Cristo.
31.Aplica-te, e pensa com grande compaixão, como Jesus, Cordeiro manso, é levado e puxado para baixo do monte, por aqueles iníquos, puxando-o pela corda, que tinha ao pescoço, batendo-o com as lanças sobre as costas, e espinhando-o, e talvez muitas vezes pela sua importunidade no puxá-lo, caísse por terra. E por isso tem-lhe compaixão, vendo-o assim maltratado e maximamente quando vês o teu dileto Senhor do céu e da terra estar diante de Anás, sua criatura. E chora devotamente, quando o vês batido em seus olhos, considerando a sua paciência.

32.Como o Senhor Jesus foi levado à casa de Caifás
e das zombarias e vergonhas que lhe foram infligidas durante toda a noite.
Capítulo Décimo

Depois que o doce Jesus recebeu a bofetada, Anás, fazendo prendê-lo estreitamente, mandou-o a Caifás, pontífice, na casa do qual estavam congregados os escribas e fariseus, os quais desejosamente o esperavam. E partindo da casa de Anás, João Evangelista partindo também, foi à Senhora, Mãe do Senhor Jesus, com grande pranto e dor, anunciando-lhe o que havia acontecido ao dileto Filhinho. A qual ouvindo esta má e amarga nova, de se crer como quase caísse morta em terra. Mas são Pedro, porém, seguiu o Mestre, desejoso de ver o fim. Depois, então, que o Senhor Jesus foi levado à casa de Caifás, vendo-o aqueles cães raivosos, que esperavam com punhais e armas, correndo-lhe atrás, arremessaram-se contra ele, e tomando-o, levaram-no diante de Caifás. E ali começaram de muitos modos a acusá-lo, produzindo muitos falsos testemunhos contra ele. E finalmente, produziram dois falsos iníquos, os quais diziam: “Nós ouvimos este dizer: “Eu posso derrubar o templo de Deus e depois de três dias reedificá-lo”. E gritando todos aqueles raivosos contra ele, o manso Jesus calando, o sumo sacerdote, isto é, Caifás, levantando-se, gritando disse: “Tu não respondes a estas coisas que te são postas por estes?” E calando, porém, o manso Cordeiro, todos com grande ímpeto e fúria se aproximaram, percutindo-o com as mãos e com os pés, dando-lhe no rosto; outros, pondo-lhe um véu diante da face, dizendo: “Profetiza, quem te bateu?”, davam-lhe bofetadas; outros, tirando-lhe a barba, e dizendo-lhe insultos e vitupérios, e fazendo-lhe zombarias e escárnios, como a um patife, com fatos e palavras. Bem é de pensar que aquela face, toda angélica, fizeram ensanguentada, lívida e negra pelas muitas batidas.
33.E sendo assim tratado o bom Jesus, Pedro, estando no plano inferior, ao fogo, em meio à sala, com os servos que se aqueciam, eis uma serva, tendo-o visto, disse àqueles que estavam em torno do fogo: “Este, isto é, Pedro, é dos discípulos de Jesus Nazareno.” E Pedro, jurando, respondeu que não o conhecia. E imediatamente o galo cantou. E estando um pouco, aqueles homens que estavam ao fogo, disseram a Pedro: “Verdadeiramente, tu és daqueles, pois és galileu; o teu falar faz-te manifesto.” E um outro servo, cunhado daquele ao qual Pedro havia cortado a orelha, disse: “Certamente eu te vi no horto com ele.” E Pedro, então, temendo, começou a maldizer e a jurar que não o conhecia e imediatamente o galo cantou. E então o Senhor, que estava em cima, nas mãos dos judeus, olhou a Pedro; e Pedro, então, recordando-se da palavra que havia-lhe dito o Mestre, saiu fora da casa, e chorando amargamente, foi a um vale e ali chorou amargamente o pecado que havia feito.
34.E assim, estando o doce Jesus entre as mãos daqueles cães, sendo bem saciados dele, quando já meia-noite, puseram aquele Cordeiro mansíssimo e pacientíssimo numa prisão escura e estreita, fazendo-o amarrar com uma corda a uma coluna e deixando lhe alguns soldados para guarda, foram cada um para a sua casa. E o piedoso Jesus permaneceu assim aflito e ferido em meio àqueles malvados, os quais a noite toda lhe fizeram zombarias e vergonhas com palavras e com fatos. Ora, considera todas essas coisas de passo em passo, porque em todas verás que te será necessário ter grande compaixão para com o teu dileto.

35.Como o Senhor Jesus foi levado a Pilatos e diante dele acusado e depois por ele mandado a Herodes.
Capítulo Décimo Primeiro

De manhã, voltando os pérfidos cães raivosos à casa de Caifás e tirando da prisão o Senhor Jesus levaram-no ao lugar onde faziam o seu conselho. Estando ali, e fazendo permanecer o Rei do céu e da terra perguntam-lhe e dizem-lhe: “Diz-nos se tu és o Filho de Deus.” Aos quais respondeu: “Se eu disser, vós não me acreditareis; e se eu vos interrogar, não me respondereis; nem, porém, me deixareis livre.” E então disseram: “Tu, então, és o Filho de Deus?” Disse o Senhor Jesus: “vós dizeis que eu sou.” Então o sumo sacerdote, isto é, Caifás, disse: “Eu te esconjuro, por Deus bendito, que tu digas se és o Filho de Deus.” O piedoso Jesus responde: “Eu o sou! E digo-vos que vós vereis o Filho do homem sentar à direita da virtude de Deus e vir nas nuvens do céu.”
36.Então o príncipe, rasgando as vestes e gritando, disse: “Este blasfemou contra Deus; que vos parece?” E com grande furor e ímpeto, correndo para ele, bateram nele, prenderam-no e elevaram-no ligado a Pilatos, que era governador pelo império romano. E, porque era o dia da Páscoa, e Pilatos era pagão, para não se contaminarem não quiseram entrar no palácio de Pilatos; mas Pilatos saiu até eles, e vendo-lhe apresentado Cristo ligado assim, disse-lhes: “Que acusação apresentais vós contra este homem?” E aqueles responderam: “Se este homem não fosse malfeitor não o teríamos trazido a ti.” Pilatos lhes respondeu: “Se ele é malfeitor, prendei-o vós, e segundo a vossa lei julgai-o.” E eles responderam: “A nós não é Lícito matar ninguém.” Então Pilatos disse: “O que ele fez?” E aqueles responderam: “Nós o encontramos a subverter a nossa gente, e a impedir que se dê o tributo a César, e a dizer que ele é Cristo Rei.” Então Pilatos, levando o Senhor Jesus dentro do Palácio, secretamente lhe interroga, dizendo: “É tu o Rei dos Judeus?” Disse o doce Jesus: “Dizes de ti mesmo isto, ou outros o disseram de mim?” Disse Pilatos: “Sou eu talvez judeu? A tua gente e os teus pontífices te entregaram em minhas mãos. O que fizeste?” Então o Senhor Jesus lhe respondeu: “O meu Reino não é deste mundo. Se ele fosse deste mundo, os meus servos combateriam por mim, para que eu não caísse nas mãos dos judeus. O meu Reino não é daqui.” Disse Pilatos:” Então, és rei?” Disse o Senhor Jesus : “Tu dizes a verdade: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Quem e da verdade, ouve a minha voz.” Então disse Pilatos: “O que é a verdade?” E tendo feito esta pergunta, porque os malditos e raivosos judeus fora gritavam não esperando a resposta do Senhor Jesus, tendo-lhe já compaixão, saiu até os judeus e lhes disse: “Eu não encontro nenhuma razão de condenação neste homem.” E os inquietos judeus começaram a gritar, dizendo: “Ele subverteu todo o povo por toda a Judeia, começando da Galileia até aqui.” Pilatos, ouvindo nomear a Galileia, perguntou se ele era da Galileia, e tendo sabido que ele era da jurisdição de Herodes, mandou-o a Herodes, o qual tinha vindo naquele tempo de festa a Jerusalém.

37.Como Herodes remeteu o Senhor Jesus a Pilatos, e como Pilatos depois o fez flagelar à coluna.
Capítulo Décimo Segundo

Manda Pilatos ligado o doce Jesus a Herodes, e indo ele, a sua Mãe, plena de amargura e dor, estava fora e esperava para vê-lo, porque de manhã, tinha vindo com João evangelista e com Maria Madalena e outras mulheres, as quais por compaixão a haviam acompanhado. E ela viu quando o seu dileto Filho foi levado da casa de Caifás à casa de Pilatos. E quanta dor sentia, vendo-o assim torpemente levarem-no, todo lacerado, batido e chagado, que havia perdido a sua forma, a alma devota o poderá pensar. Ela, havendo-o seguido até a casa de Pilatos, e ainda vendo levá-lo à casa de Herodes, imagina quanto sofrimento e dor sentia.
38. Sendo, então, levado o humilde Jesus diante de Herodes, este muito se alegrou, porque há muito tempo o havia desejado ver, e esperava vê-lo fazer algum sinal. E os escribas e sacerdotes, que o haviam seguido, constantemente o acusavam. E interrogando-o Herodes sobre muitas coisas, Cristo não lhe respondeu. Assim, vendo Herodes que ele não lhe respondia, fez escárnio dele, reputando-o louco. E, em seu desprezo, fez colocar sobre ele uma veste branca, como se faz aos loucos, e remeteu-o a Pilatos. E naquela hora tornaram-se amigos Herodes e Pilatos, os quais antes eram inimigos. E, sendo novamente apresentado a Pilatos, este chamou os judeus e lhes disse: “Vós me oferecesses este homem, e eis que eu não encontro nele nenhuma razão de conde nação. Nem Herodes, porque ele remeteu-o a mim. E eis que não fez coisa alguma digna de morte.” Mas os sacerdotes, acusando-o de muitas coisas, o Senhor não lhe respondendo, disse Pilatos: “Tu não respondes? Não vês tu de quantas coisas te acusam?” Porém, não lhes respondia, mas calava; tal que Pilatos, muito se maravilhava. E desejando Pilatos libertá-lo, chamou a turba e disse: “É costume que no dia da festa eu vos deva soltar um malfeitor. Quereis vós então que eu vos solte este ou Barrabás?” Barrabás era um ladrão notável, o qual por homicídio e traição estava na prisão. E pensou Pilatos que mais quisessem que fosse morto Barrabás. Mas aqueles cães raivosos, gritando: “Mata este e solta Barrábas.” Pilatos disse: “Que, então, farei eu de Jesus, chamado Cristo?” E aqueles gritavam: “Crucifica-o, crucifica-o.” Então Pilatos: “ó gente maldita, que mal ele fez? Eu não encontro nele nenhuma razão de condenação. Então, eu o farei bater e deixá-lo-ei livre.” Estando Pilatos assim a falar, a sua mulher mandou-lhe um mensageiro com uma embaixada nesta forma: “Deixa ir, não te embaraces com este homem, porque nesta noite eu sofri muitas coisas em visão por ele.” Pelo que Pilatos, ainda mais procurando livrá-lo, crendo fazê-los estar contentes, fez levar o manso Jesus aos seus soldados e amarrá-lo a uma coluna, completamente desnudado, e ali fez-lhe baterem asperamente com flagelos feitos de juncos marinhos, fazendo aquela face santíssima toda lívida e lacerada, ensanguentada. E depois, soltando-o da coluna por ordem de Pilatos, vestiram-no, por desprezo, de uma veste de púrpura velha, pondo-lhe em cima uma manta velha de cor amarela, porque antigamente os reis se vestiam assim. Deste modo, para maior desprezo seu e confusão, porque ele se chamava rei, vestiram-no deste modo. E pondo-lhe na cabeça u ma coroa de espinhos longos e agudos, puseram-no sentado numa cátedra, e lhe deram uma cana nas mãos, e todos vinham, um a um, e ajoelhando-se diante dele, o adoravam, dizendo: “Deus te salve, rei dos Judeus.” E, tomando aquela cana, davam-lhe sobre a coroa, de modo que aqueles espinhos se fixavam na pele santíssima da cabeça. E assim por longo espaço o tiveram, fazendo dele todos aqueles escárnios e irrisões, com fatos e palavras, que se pode imaginar.

39.Como Pilatos procurava deixar livre o Senhor Jesus, e depois finalmente deu a sentença contra ele.
Capítulo Décimo Terceiro

Depois Pilatos, pensando com isso ter saciado a raiva dos judeus, conduziu--o fora, à janela, assim vestido de púrpura e todo ensanguentado com a coroa de espinhos. E mostrando-lhes o Senhor Jesus, disse-lhes: “Eis, eu lhes trago diante para que conheçais que eu não encontro nele nenhuma causa de condenação. Mas aqueles malignos, não contentes de vê-lo assim afligido, começaram a gritar: “Crucifica-o. Crucifica-o.” Então, Pilatos, irado, respondeu-lhes: “Gente maldita, tomai-o vós e matai-o, porque eu não encontro nele razão de condenação”. E aqueles, gritando, responderam: “Nós temos a lei, e segundo a lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus.”
40.Então Pilatos, ouvindo estes discursos, teve mais medo, duvidando de não matar o Filho de Deus. E, reconduzindo-o dentro, interrogou-o e disse: “Donde és tu?” E não respondendo o Senhor, disse Pilatos: “Tu não me respondes? Não sabes que eu tenho poder para colocar-te na cruz, e poder para libertar-te?” E o manso Jesus lhe respondeu: “Tu não terias poder algum para comigo, se não te fosse dado do alto. E entretanto, aquele que me traiu, tem maior pecado que tu.” E por isso Pilatos muito procurava libertá-lo; mas os Judeus gritavam mais forte, dizendo: “Se tu libertas este, não és amigo de César, porque todo homem que se faz rei, contradiz César? Então Pilatos, temendo a inimizade de César, mais que a de Deus, conduziu-o ainda para fora; mostrando-o aos Judeus, disse: “Eis o vosso rei.” E aqueles gritavam: “Crucifica-o, crucifica-o... E Pilatos disse: “Quereis que eu crucifique o vosso rei?” E aqueles responderam: “Não temos rei, senão César”.
41.Então Pilatos, desejando contentá-los, fez trazer-lhe água, e diante de todos, lavou as mãos, dizendo: “Eu sou inocente do sangue desse justo; vós o vereis.” E todos responderam: “O seu sangue esteja sobre nós e nossos filhos.” E então Pilatos, para contentá-los, deixou Barrabás, e sentando sobre o tribunal, deu a sentença que o doce Jesus fosse levado ao monte Calvário e ali fosse crucificado.

42.Como o Senhor Jesus foi conduzido ao monte Calvário, e ali colocado na cruz, e como era zombado.
Capítulo Décimo Quarto

Dada a sentença e feita a cruz, e preparadas todas as coisas, e conduzido o Salvado Jesus, amarrado com as cordas ao pescoço, e tirado para fora da casa de Pilatos e pondo-lhe às costas a cruz na qual deveria ser crucificado; esta cruz, como se diz, era comprida uns quinze pés. E junto com ele conduziam dois ladrões para crucificá-los com ele. E eis que, conduzindo estes cães raivosos, sem piedade, o doce Jesus à cruz, fatigado pelo grande peso da cruz, caiu em terra; pelo que foi necessário que tomassem um que lhe levasse a cruz. E então a sua adorada Mãe, a qual esteve sempre na praça, e tinha visto e ouvido aquilo que aconteceu, e muitas vezes desfalecida, vindo-lhe ao encontro, e vendo-o assim todo desfigurado, que não parecia o seu Filho, de dor ainda cai em terra como morta. Quanta era a dor da aflita Mãe, pense a alma devota.
43.Sendo, portanto, conduzido o piedoso Jesus fora da cidade ao monte Calvário, aqueles iniquíssimos Judeus o despojaram e deixaram nu diante de todo o povo, e estendendo na terra a cruz, pregaram-no sobre ela com pregos longos, pontiagudos. E tendo eles feito dois buracos, no alto do lenho, para cravar as mãos, tendo cravado uma mão, e a outra não alcançando o outro buraco, prenderam aquele braço santíssimo e pela força o trouxeram até o buraco, de modo que recebeu inestimável dor. Depois com um prego cravaram os pés santíssimos. E então, o mansíssimo Cordeiro, rezando a Deus por eles, dizia: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” E essa foi a primeira palavra que ele disse na cruz. Depois, levantando a cruz, a cravaram na terra. Esta cruz era de três lenhos, isto é, o lenho vertical, que era de cipreste; o lenho transversal, que estava no alto, à cabeça do lenho vertical, era de palmeira; de modo que a cruz era à maneira do sinal Tau, isto é, feita nesta forma T; e na terra estava fixo um lenho grosso, que era de cedro, no qual estava cravada a cruz. Depois, sobre a cruz, Pilatos fez colocar uma tabuleta, a qual era de oliveira, na qual estava escrito: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.” De modo que, em tudo, havia na cruz quatro diversos lenhos.
44. Estando, assim, levantada a cruz santíssima, também foram erguidas duas outras cruzes, sobre as quais foram postos dois ladrões, um à direita, e o outro à esquerda. E então os soldados de Pilatos tomaram as vestes do Senhor Jesus, as quais eram duas, isto é, uma túnica que levava em cima, da qual fizeram quatro partes; a outra, que levava em baixo, e porque era sem costura, não a repartiram, mas tiraram as sortes, para ver de quem seria. E esta, havia-lhe feito a sua Mãe, sendo ele pequenino. E como ele crescia, assim crescia a túnica. Estando, portanto, assim Cristo na cruz, os escribas e fariseus faziam escárnios juntamente com as turbas, dizendo: Este salvou os outros; salve-se a si mesmo, se o puder. Se ele é Filho de Deus, desça já da cruz e nós creremos.” E ainda, um daqueles ladrões que estava na cruz blasfemava dizendo: “Se tu és Filho de Deus, salva a ti mesmo e a nós. “Mas o outro ladrão, respondendo, dizia-lhe: “Nem tu temes a Deus, porque estás naquela mesma condenação que estão os judeus? Nós certamente receberemos aquilo que merecemos; mas este não fez mal algum.” E voltando-se para o Senhor Jesus, lhe disse: “Senhor, peço-te que te recordes de mim quando tu vieres no teu Reino.” Ao qual o misericordioso Senhor respondeu: “Em verdade te digo que hoje tu estarás comigo no paraíso.” E esta foi a segunda palavra que ele disse na cruz.

45.Como o Senhor Jesus recomendou a Mãe ao discípulo,
e como o sol se obscureceu, e depois como morreu na cruz.
Capítulo Décimo Quinto

Estando o dulcíssimo Jesus sobre a cruz, estava perto da cruz sua Mãe dolorosíssima, e com ela, Maria de Cléofas, sua irmã, e Maria Madalena e João evangelista: e todos choravam dolorosamente vendo as penas que o seu doce Filho suportava. A mesma dor, pelo que toca à sua Mãe, língua humana não poderia exprimir. E vendo-a o piedoso Filho, movido de compaixão, disse-lhe: Mulher, não sofras: eis João, que será teu Filho.” E depois, disse ao discípulo: “Eis a tua Mãe.” E esta foi a terceira palavra que ele disse na cruz. E em torno da hora sexta, o sol se obscureceu, e fizeram-se trevas sobre toda a terra, até a hora nona. E, em torno da hora nona, emitiu o Senhor Jesus um forte grito, dizendo: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonasses?'' E esta foi a quarta palavra. E ouvindo alguns ele assim gritar, diziam: “Este chama Elias”, porque dizia, gritando: “Eli, Eli, lama sabactâni” que quer dizer: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonasses?”
46.E depois disto, sabendo o Senhor Jesus que todas as coisas estavam cumpridas, para realizar bem as escrituras, gritou ainda e disse: “Tenho grande sede.” E imediatamente, correndo, um tomou uma esponja de vinagre misturado com fel e pondo-a na ponta de uma cana, a pós em sua boca. E tendo o Senhor Jesus experimentado, não a quis beber. E esta foi a quinta palavra que ele disse sobre a cruz. Depois disse a sexta palavra: “Tudo está consumado.” E estando um pouco, gritando em alta voz, disse a sétima palavra, isto é: “Pai, nas tuas mãos recomendo o meu espírito.” Dita esta palavra, inclinando a cabeça, rendeu o espírito a Deus. E eis que imediatamente a cortina que estava no templo, se fez ao meio, e houve um grande terremoto e as pedras se rompiam e as sepulturas se abriram, e muitos corpos de santos ressuscitaram, os quais, vindo à cidade, apareceram a muitos. E vendo o centurião, e os outros soldados, dos quais era cabeça, o terremoto e as outras coisas que ocorriam, disse: “Verdadeiramente, esse era Filho de Deus.” Mas os Judeus, vendo aquilo que acontecia, retomaram a casa, e as turbas do povo, parecendo-lhes ter feito mal, batiam-se no peito.

47.Como foram quebradas as pernas aos ladrões,
e como o corpo do Senhor Jesus foi descido da cruz e depois sepultado.
Capítulo Décimo Sexto

Estavam ali presentes a sua Mãe e outras mulheres, que haviam-lhe feito companhia, e seguido Cristo, servindo-o, entre as quais Maria Madalena, e Maria, Mãe de Tiago menor e a mãe de José, as quais não se afastaram da cruz, fazendo companhia à sua Mãe santíssima. Depois, em torno da hora de vésperas, os Judeus, não querendo que os corpos daqueles que estavam na cruz, ali permanecessem até o sábado, que era o dia da Páscoa, pediram licença a Pilatos de fazer quebrar-lhes as pernas. E vieram e fizeram quebrar as pernas àqueles dois ladrões. E depois, chegando a Cristo e encontrando-o já morto, não lhe quebraram as pernas; mas um soldado, que tinha o nome de Longino, dirigindo a lança, firmou-a no lado direito, do qual imediatamente saiu sangue e água; e descendo pela lança, ensanguentou as mãos, que ignorantemente levou aos olhos, e logo recebeu a visão, da qual antes era privado, porque era cego.
48.Aproximando-se o anoitecer, um nobre homem, rico e bom, o qual era discípulo do Senhor Jesus, mas oculto por medo dos Judeus, confiantemente foi a Pilatos e pediu-lhe o corpo do Senhor Jesus, o qual ele lhe doou, tendo sabido do centurião, antes, como já estava morto. E vindo José com um outro discípulo oculto, chamado Nicodemos, e levando consigo bem cem libras de mirra e aloés, desceram aquele corpo preciosíssimo da cruz, vendo-o e tocando-o com grande pranto e dor a sua Mãe dolorosíssima. E depois, envolvendo-o em um lençol limpo, com aromas, puseram-no em uma sepultura, que havia num horto ali perto, na qual jamais se tinha posto alguém. E depois, a Mãe dolorosa retornou à casa de João evangelista.
Deo Gratias. Amém. Aqui termina a Paixão de Cristo.

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